Está certo que não ganhamos um campeonato desde 2003 – porque a Série B do Brasileiro tem valor sim, perguntem para os gambás se eles não querem tal nesse ano – mas, pela primeira vez em muitos anos, posso afirmar que temos um time!
Não é apenas porque enfiamos quatro gols nos bambis, com uma vitória incontestável, menos para aquele anão de jardim – que pra mim parece uma versão miniatura do psiquiatra-psicopata do BBB – irritante e que não sabe perder – típico dos torcedores do seu time –, mas porque o time está jogando redondo: o melhor do mundo está de volta ao jogo, o Pierre é o melhor volante marcador do Brasil, o Diego Souza está mostrando o quanto vale, o Kleber me surpreendeu e o Valdívia, bem ele é um caso a parte.
Demorou um tempo para ele se firmar, depois começou a levar porrada sem parar, mas precisou de um técnico de verdade pra fazer ele mostrar o que realmente sabe. Resumindo, joga pra caralho e tem raça de um argentino. Precisa de algo mais? É isso que a gente quer, um cara que não pipoque, que vá pra cima, que abuse, que irrite, que dê nó no adversário. Bem, por isso que ele joga no Palmeiras e o Richarlyson, no SP, cada time tem o jogador que merece.
Vamos nos classificar e sermos campeões, agora eu acredito. Mas, preciso admitir: foi lindo ganhar de quatro daquele time sem torcedores. Foi tão fácil que fiquei até sem graça de brincar com a Alê.
E não é que finalmente o Chinese Democracy, ops, o Plano Bresser, a demo da nossa banda ficou pronta? Mais de seis meses de trampo, nenhum ensaio, para finalmente as nossas cinco – isso mesmo, só cinco – músicas ficarem prontas.
É engraçado isso, ouvir as músicas depois de prontas. Primeiro porque eu só as conhecia dos ensaios e shows, ainda meio toscas e não elaboradas, com apenas um guitarra e um teclado, sem efeitos e o caramba. Segundo porque o baixo entra no começo da gravação e acaba sendo até simples de gravar pois, sendo cabaço total de estúdio, optei pelo simples – e, Paulo Júnior o caralho, Pistoloi.
Diferente de um livro, onde você sabe exatamente o que está escrito e a revisão corrige apenas os erros de português, um álbum muda muito durante a sua feitura. Cada sessão de gravação, de mixagem, de masterização, apresenta uma música nova e, impossibilitado total de poder participar dessas sessões, cada versão enviada era uma surpresa até que, finalmente, essa semana, eu pude ouvir a versão final, que já se encontra em nosso MySpace (www.myspace.com/bresserrock).
Tal qual um filho que nasce depois de uma longa gestação, a primeira audição me emocionou. Não deu pra prestar muita atenção nos detalhes, mas é legal a sensação de saber que aquele som tem um dedo teu. Certo que já as ouvi umas cem vezes, mas para mim elas soam incríveis e adoráveis, melhor que muita coisa que toca pelas rádios por aí. Ei-las:
Dia Anterior – Para mim e para os outros pinguços, a música que nasceu para ser a single. A primeira que tocamos inteira, rock mais moderninho, com guitarrinha a lá Strokes e um riff de teclado que gruda.
Adaptação – A balada, para mim influência total de Engenheiros do Hawaii – o que no meu caso é uma coisa boa –, cheia de efeitos que não vamos conseguir repetir no palco – quem manda não saber tocar direito.
Escotilhas – Algo próximo de uma balada, mas com uma letra mais pessoal . Por muito tempo foi a minha música preferida, mas agora ta foda escolher, mas ainda é a minha preferida de se tocar.
Infinito - Nasceu com influências totais de Metallica, é nossa canção mais pesada. Porém, nesse meio tempo está parecendo mais Muse, pelos efeitos colocados na gravação. Acho a letra mais legal.
Meu Extrato – Era pra ser um punk Plebe Rude, mas acabou virando alguma coisa bem legal e diferente. Confesso que era a que eu menos gostava das cinco, porém confesso também que foi a que mais me surpreendeu depois de pronta.
Existem diversas frases que o meu pai costuma dizer, e essa é uma delas – e uma das que eu não agüento mais ouvir –, porém têm alguns momentos que ela se casa muito bem, e nesse blog é um desses.
Quantas vezes eu não tenho idéias legais para escrever, fatos interessantes, insights que em breve são perdidos, mas não são transformados em letras e frases. E exatamente porque eu não tenho acesso e muito menos computador disponível nesses instantes e, escrever numa folha de papel é impossível pois, além da preguiça, um dia depois que escrevi, nem eu sei o que está lá, e decifrar é tarefa digna de algum historiador especializado em escritas desaparecidas.
Apenas para exemplificar, num curto espaço de tempo, diversos fatos inspiraram-me e gerariam posts bacanas, mas o tempo passou, o momento já era e agora falar sobre eles seria idiota. O show do Bob Dylan seria digno de um texto memorável, com suas releituras que tornaram Highway 61 Revised uma canção mais maravilhosa ainda – como se fosse possível – e brocharam um pouco Blowin in the Wind, canção essa tocada na hora exata da virada do dia 6 para o dia 7, celebrando o mais incrível início do dia do meu aniversário, pois me trouxe, além da trilha sonora, a companhia da pessoa mais maravilhosa do mundo.
Complementando o assunto aniversário, poderia dizer sobre a “festa” em si, cercado de amigos, bebidas e boa comida. Mas foi-se quase uma semana dos 31 anos e de que vale contar sobre isso?
Sobram assuntos, nosso novo apartamento, que a cada conversa com o arquiteto nos empolga mais, o show do Interpol, tecnicamente perfeito, mas que faltou um pouco de alma ou alguns hits de verdade e, obviamente, as minhas reclamações de praxe, que com certeza preencheriam linhas e linhas.
Bem, o tempo passa, os assuntos também, e eu me perco no caminho. Mas isso vai mudar, ô se vai.
Era uma mesa de bar. Nela estavam sentadas duas pessoas, um adolescente com cara de moleque, cabelos compridos, boné preto-quase-cinza do Boston Celtics, camiseta e bermudas. Tem em sua frente uma garrafa de Guaraná Antártica pela metade. Do outro lado da mesa um jovem com os mesmos traços, porém mais velho, de cabelos curto e cavanhaque. Usa uma camisa social, calça e uma gravata já afrouxada para diminuir o efeito do calor, porém não resolve muito. Está segurando um copo de cerveja, que acaba de beber.
- Será que ele vem? – Pergunta o mais jovem.
- Com certeza sim, afinal foi o que combinamos, certo? – Responde o mais velho, olhando para uma cadeira vazia na mesma mesa que estão sentados.
- É, verdade.
Então entra no local um outro homem, também com aparência semelhante aos dois, com os cabelos compridos do mais jovem e não apenas o cavanhaque do mais velho, e sim uma barba. Usa calça jeans surrada, um All Star preto e uma camiseta vermelha, sem nenhum desenho. Em silêncio, senta no local vazio, pede ao garçom um copo e, ainda sem preferir nenhuma palavra, enche o copo com a cerveja que estava na garrafa, dá um longo gole, devolve o copo à mesa, limpa a boca com as mãos e, olhando para os dois, simultaneamente, faz uma pergunta sem na verdade querer uma resposta, pergunta mais por educação:
- Tudo bem?
- Sim, e você?
- Indo. – E sem dirigir os olhos a nenhum deles, bebe outro gole de seu copo.
- Cara, - intervém o mais velho – que merda é essa?
- Do que você está falando?
- Disso tudo! Tuas roupas, tua aparência, tua atitude. Que é isso?
- Nada. – E vira-se ao primeiro garçom que passa, pedindo uma outra cerveja. Permanece em silencio até que ela chegue, e complete teu copo.
- É, que merda é essa? – É a vez do mais novo.
- Já falei, porra, não é nada!
- O que você ta fazendo?
- Eu? Tomando cerveja e cumprindo o que vocês prometeram por mim.
- É, tô vendo, e tá tomando cerveja pra caralho né?
- Tá mesmo, - volta o mais velho – só não sei como você não está gordo!
- Vão se foder, os dois. Não sei o que eu tô fazendo aqui, conversando com dois idiotas.
- Idiotas? Nós? Quem é que chegou com cara de velório, parecendo um mendigo e enchendo a cara de cerveja?
- Vão os dois pra puta que pariu. – E nisso levanta da cadeira, num rompante de raiva e fúria, que é imediatamente repreendido pelo engravatado.
- Pode parar, senta aí agora e pode falar o que aconteceu! Que anda acontecendo pra você andar tão estressadinho.
- Vocês querem saber?
Os dois concordaram com a cabeça. Então ele volta a sentar à mesa, toma um grande gole e começa a falar:
- Os últimos cinco anos da minha vida foram o que você pode chamar de uma grande merda! Perdi quase tudo que eu tinha, seja materialmente falando, seja psicologicamente. Minha vida virou uma grande montanha russa fantasma, onde existem muito mais descidas do que subidas, e eu tô de saco cheio disso.
- Foi tão ruim assim?
- Ruim? Eu tenho praticamente 31 anos e não tenho porra nenhuma! Nunca consegui comprar um carro, um apartamento, uma droga que seja. Não tenho cartão de crédito, não tenho noites de sono, não tenho auto estima. Felizes agora? Vão me deixar tomar minha cerveja em paz ou vão continuar a me encher o saco?
O mais novo fica quieto, meio que assustado, talvez com o que ouviu, mas provavelmente mais como a maneira que foi dito, com o tom de voz, com a expressão, mista de raiva e frustração. O mais velho respira por um momento, tenta recompor as idéias, e arrisca:
- Mas o que de ruim aconteceu? Dá pra falar?
- O que você quer saber, moleque?
- Moleque? Quem age e se veste como moleque, é você, se idiota. Quer parar de viadisse e dizer algo com algo?
- Vai, o que você quer saber?
- Tá, dá pra você primeiro dizer o motivo de tanta raiva?
- Você já se sentiu um fracassado?
- Sinceramente, ainda não, eu acho que eu tenho um grande futuro pela frente!
- Taí a diferença entre nós, eu achava que eu TERIA uma grande futuro pela frente, e o que eu veja agora é um idiota fracassado, nada mais do que isso.
- Por qual motivo?
- Eu já não disse? Nada foi pra frente na minha vida, todos os meus sonhos se dissiparam pelo caminho, eu rodo em círculos, numa poça de lama que atola os pneus da minha vida e que a única coisa que fazem é espirrar sujeira para todo lado.
- Impossível ser tão mal assim, será que não é exagero?
- Não? Você tem idéia do que eu passei nesse tempo todo?
- Não tenho não, e se você não me dizer, nunca vou conseguir saber. Desembucha aí.
- Meu, eu não tenho uma profissão definida, trabalho pra caralho num monte de coisas sem fazer nada direito e não sobra nada no bolso no final do mês. Estagnei e nunca mais voltei a estudar, consegui acabar com um relacionamento que era praticamente um casamento, cometi todos os erros que vocês podem imaginar e muito mais do que seria permitido para um ser humano. Tem dias que me sinto um lixo, e não são poucos esses dias.
- Cara, você precisa de terapia.
- E eu não sei? Já fiz duas vezes...
- Caraco! Você é louco? – Interrompeu o mais novo, que até aquele momento permanecia apenas ouvindo.
- Se liga, idiota! A terapia foi muito boa pra mim, principalmente a segunda.
- E por que parou? – Voltou a questionar o mais velho.
- Tempo. Eu não estava conseguindo chegar no horário nas sessões, e sem continuidade não dava. Mas eu pretendo voltar um dia sim.
- E que bem ela fez?
- Agiu bem sobre a minha auto estima. Ela que era um pouco baixa de repente se reverteu e pude começar a me ver com outros olhos.
- Olha, finalmente um comentário positivo. Então sua vida não é tão ruim assim.
Sem nem dar-se ao trabalho de olhar ao seu interlocutor, ele terminou de beber seu copo, pediu mais uma garrafa e levantou-se. Foi ao banheiro. Nisso restaram os dois primeiros a conversar.
- Estou com medo.
- Do que?
- Não tá óbvio?
- É, não devo negar que eu também, mas vamos conversar mais, alguma coisa boa deve ter nisso tudo. Por falar nisso, você não está com fome não? Vamos pedir algo para comer.
O tempo de pedirem algo foi o suficiente para que o amigo mau humorado retornasse. Sentou-se e mais uma vez, sem dizer uma palavra, tornou a encher o copo e beber. Porém, após isso, tomou a iniciativa de retornar a falar:
- Sabe, eu ando muito estressado e irritado, e acabo falando demais. Não que eu não sinta as coisas que vocês acabaram de ouvir, mas não é toda hora que estou assim, além de andar com a tendência de exagerar um pouco.
Os dois apenas continuaram olhando, como um sinal para que a conversa continuasse, agora em forma de um monólogo.
- Muita coisa boa aconteceu comigo nesses últimos 5 anos, só que nós temos a tendência a não dar valor a isso, a supervalorizar os acontecimentos ruins e desvalorizar os bons. Sabe aquela viagem pro Canadá? – Indagou encarando o mais velho.
- Claro. O que tem ela?
- Foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida. Passei lá meses inesquecíveis e aprendi muito e me diverti muito também.
- Que legal, e que mais coisas bacanas você fez nesse tempo todo?
- Poxa, até que fiz bastante, viu? Escrevi um livro, está certo que foi uma produção independente e que não consegui vender muitas cópias do mesmo, mas consegui. Parei de tocar por um tempo mas voltei lá em São Paulo, e agora estamos terminando de gravar um CD. Claro que não tenho expectativas de ficar famoso e ganhar dinheiro com isso, mas vai ser bem legal.
- São Paulo? Mas por que em São Paulo?
- Porque eu moro lá há 4 anos. Está certo que ultimamente eu tenho andado mais por aqui, pelo interior, mas eu estou voltando logo pra lá, e para não mais voltar.
- Irado. Então deve ter conhecido muita gente.
- Muita, conheci muitas pessoas bacanas, fiz novas amizades, mas sabe o que é o mais irônico?
- O que?
- Os meus maiores amigos continuam sendo exatamente os mesmos que eram há 5 anos atrás. Os mesmos caras, cada vez mais amigos.
- Que da hora! Isso é bom né?
Ele ficou quieto por um instante, coçou a barba por uns instante antes de responder: - É ótimo. Quem tem a sorte de poder contar o tempo que conhece seus amigos em décadas, não em anos?
- Verdade. E a família?
- Passamos por problemas, como todas passam, mas tem uma coisa que eu preciso contar. Olhem isso aqui. – E tira do bolso um celular, abrindo e mostrando uma foto de um garotinho com a camisa do Palmeiras.
- Que fofo, quem é? Teu filho?
- Não, ainda não. É o meu sobrinho, a criança mais fofa e incrível de todo o mundo! Ele é lindo, inteligente e meu afilhado. – Ao falar dele, seus olhos brilham e tua aparência até muda.
- Por falar nisso, e você? Comentou que terminou um relacionamento, mas e agora? Sozinho?
- Cara, não tô não. Passei um período meio conturbado, mas encontrei uma pessoa maravilhosa, uma companheira incrível e estou muito feliz.
- Tá apaixonado?
- Estou, muito!
- Está vendo? Nem tudo na tua vida é ruim?
Ele pára por um momento, pensa em tudo que disse e que foi dito hoje. Olha para os dois e a sua feição já mudou, e muito, e para melhor. Os três ficam em silêncio por alguns minutos, até que, como que ensaiados, levantam os seus copos e brindam. Brindam sem dizer nenhuma palavra, pois não há nada para ser dito, não precisa ser dito, pois eles sabem o que estão brindando.
Estão somente brindando à vida. Ou brindando a vida, se é que vocês me entendem.